Este Papa não tem jeito, cada dia nos desafia a pensar, a tomar postura diante do que acontece no mundo e na Igreja de hoje. A entrevista publicada ontem em varias revistas dos jesuítas do mundo todo e que está sendo capa dos jornais mais importantes é um motivo a mais para isso.
Francisco é alguém que desde o primeiro momento nos surpreende, já na primeira pergunta: «Quem é Jorge Mario Bergoglio?» A resposta é daquelas que ninguém espera: «Não sei qual possa ser a definição mais correta… Eu
sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, um gênero literário. Sou um pecador». Numa sociedade e numa Igreja onde há tanta gente metido a santo, que alguém a quem muitos chamam de santidade, diga de inicio que a melhor definição dele é, sou um pecador, nos mostra como quem é de Deus vive de um jeito diferente. Só podemos experimentar a misericórdia quando nos sentimos necessitados dela.
Mas a coisa não fica aí, ele não tem medo de pergunta, de responder, sabendo que não é dono da verdade absoluta. Num jeito de viver a religiosidade tão individualista, ele nos diz que "ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado", precisamos "sentir com a Igreja", destacando assim a importância da vida em comunidade para chegar a Deus, de viver a santidade nos afazeres do dia a dia.
Em palavras do Papa "aquilo de que a Igreja mais precisa
hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos
fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois
de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol
ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar
de tudo o resto". A Igreja não pode continuar "se encerrando em pequenos preceitos", somos chamados a ser "ministros de misericórdia... capazes de aquecer o coração das pessoas", deve ser "uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e
ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é
indiferente", e pensa "nos divorciados recasados, casais homossexuais, outras situações difíceis. Como fazer uma pastoral missionária nestes casos?". Não podemos insistir tanto nas questões morais e sim em propor o Evangelho.
Ele diz claramente, sobre o papel da mulher, que "é necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja", mas sem cair num “machismo de saias”, pois "a mulher tem uma estrutura diferente do homem... A Igreja não pode ser ela própria sem a mulher e o seu papel. A mulher, para Igreja, é imprescindível".
Ele nos chama a "encontrar a Deus em todas as coisas" tendo "uma atitude contemplativa". Esta é uma atitude inspirada em Santo Inácio, pois a espiritualidade jesuítica está muito presente na vida do Papa. Mas sabendo que "neste procurar e encontrar Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incertezas", pois "se alguém tem a resposta a todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ela" (se liguem os donos da verdade!), "é um falso profeta, que usa a religião para si próprio". Diante disso "devemos deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas. É necessário ser humilde". O Papa nos chama a "ter a coragem de abrir novos espaços para Deus.Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo
exagerado à “segurança” doutrinal, quem procura obstinadamente recuperar
o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E deste modo a
fé torna-se uma ideologia entre tantas... Deus está na vida de cada pessoa... de cada um. Mesmo se
a vida de uma pessoa foi um desastre..."
Devemos "ter esperança", "viver na fronteira", e ao rezar nos diz como é que ele faz, se perguntando "Que fiz por Cristo? Que faço por Cristo? Que farei por Cristo?".
Estas e outra muitas coisas que a gente só vai entender lendo e relendo, meditando, aprofundando no pensamento de um homem que é presença do Deus de Jesus Cristo, o Deus da MISERICÓRDIA.
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